O menino matou o gato, enterrou o gato e esperou três dias para que o gato começasse a não ser mais gato. O menino desenterrou o gato. Assim o velho disse. Nós ouvíamos o que o velho contava. O velho lavrava um graveto com um canivetinho enquanto contava. Cinco da tarde. Os novilhos surgiram em fila indiana, beirando um canavial, e seguiram por uma trilha até o cocho que continha sal. De longe, dava para ver São Paulo. Era uma chácara em beira de rodovia. O velho disse que o menino queria ver o gato três dias depois de morto. Ele viu o ventre do gato estufado para fora da terra e ainda furou o ventre do gato com uma lasca de bambu. O menino cobriu o nariz e virou o rosto para o lado que dava para ver São Paulo, de longe. O menino suou frio porque o ar não era mais respirável e coisas muito horríveis vazavam do ventre do gato. O menino se afastou lentamente. O menino calçava botas novas e o solado das suas botas novas esmagava sem dó os pedregulhos enquanto ele se afastava. O velho lavrou mais um pouco o graveto com o canivetinho e mencionou outras histórias cruéis existentes pelo mundo. O velho chamava-se Onaldo. Ele era um velho já muito velho. O menino não tinha nome.
AS HISTÓRIAS CRUÉIS
06 domingo nov 2011
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